Essa é uma narrativa que eu escrevi para um trabalho da faculdade.
Tínhamos que desenvolver uma história em cima de uma obra de arte eu escolhi esta, pois tem um pouco a ver com a minha vida.
Obra: Criança Morta
Artista: Cândido Portinari
Ano: 1944
Estilo: Expressionismo
Sobre a obra: 'Criança Morta,' de Cândido Portinari, faz parte de uma série de pinturas sobre os retirantes nordestinos, ou seja, o drama do povo brasileiro que sai de sua terra natal em busca de melhores condições de vida. É uma obra dramática e pode ser observada pela expressão das personagens, que lutam para sobreviver. Esse quadro causou muita repercussão na época (1944), pois a sociedade não estava preparada para ver tamanha miséria, retratada pelos pincéis de Portinari. Inclusive, alguns textos falam que o autor foi perseguido pelo governo por causa dessa obra. É claro! Que governo não gosta que divulguem a realidade.
Sobre o autor: Cândido Portinari é um dos pintores brasileiros mais famosos do mundo. Ele nasceu em 1903, na cidade de Brodowski (parece cidade estrangeira, mas não é), interior de São Paulo. Estudou na Escola de Belas-Artes do Rio de Janeiro e terminou seus estudos na Itália. Além de produzir obras lindas, ele retratou questões sociais do Brasil, que é o caso da "Criança Morta", e por isso, ficou muito conhecido.
História de um repórter
"Estar numa terra seca, quente e
quase escassa de alimentação é, às vezes, insuportável. Às vezes não, sempre
insuportável. Como pode passar no noticiário que o Brasil está caminhando para
a erradicação da pobreza, sendo que aqui no sertão de Paraú, nós não
temos nem água para cozinhar o arroz que nossos filhos precisam comer antes de
irem à escola".
Essa é a versão de Dona Sebastiana,
uma nordestina guerreira, que luta para amenizar o sofrimento de seus três
filhos: Jacó (8), Tomé (6) e Joana (12). Ela mora em Paraú, sertão do
Rio Grande do Norte. Uma cidade que quase nunca chove, quase nunca tem visitas,
tampouco governo pra ajudar. Porém, a notícia que se tem na televisão, o único
passatempo para as 129 pessoas que moram na cidade, é de que o Exmo. Sr presidente
está distribuindo dinheiro para o povo de todo o Brasil migrar para a classe B.
Todo o Brasil.
Em Paraú não tem
Banco Central, nem banco de praça. Não tem Pão de Açúcar, a
não ser o da padaria do Zequinha, que fica na esquina da casa de Dona Sebastiana.
Em Paraú tem seca,
tem fome, tem miséria. Mas esse não é o único problema da
família, porque Joana recebeu uma herança de seu avô paterno. Um terreno com
plantações de milho, arroz e batata doce é o que sustenta a família composta
por seis pessoas. Além da chefe de família, do marido Diabético e dos três
filhos, a família Silva tem a sorte da presença da mãe de Dona Sebastiana,
Francisca, que é a única pessoa que ainda tem esperanças de uma vida
menos sofrida.
Certa noite, Jacó perguntou ao seu pai
se podia jogar bola com os amigos da escola. Seu pai permitiu,
porque o caminhão pipa esteve no
sertão e deixou alguns
litros de água a mais para passarem a semana. Assim, Jacó não corria o risco de
desidratar. Não é todo dia que tem água em Paraú. Essa terça
feira foi de muita alegria, tudo o que os moradores da cidade queriam fazer nos
últimos três meses, ele puderam fazer. Lavaram roupas, cozinharam, regaram as
plantações, tomaram um banho mais longo. Único dia em que tinha água em Paraú e que o pai de Jacó
o autorizou que fosse jogar bola, o menino
chutou a bola murcha como se nunca mais fosse chutá-la novamente.
Enquanto isso, Joana estava em casa
brincado com o sabugo que acabara de tirar da plantação. Esse sabugo representa
uma boneca que o resto do mundo possui, a boneca Barbie. Só que esta estava no
padrão Paraúano: magérrima,
cabelo crespo e um pouco de sujeira em cada parte do corpo. A menina sempre via
na televisão uma piscina cheia, que sonhava em entrar nela um dia. O governador
do Rio Grande do Norte disse que em 2012 todas as escolas deveriam ter aula de
natação, mas a menina sabia que isso era impossível em Paraú, pois a
escola que estudava era no quintal de uma professora aposentada e
generosa.
Dona Francisca adoece
A cada reportagem assistida, uma
utopia a mais na vida de cada membro da família Silva e de cada cidadão na
comunidade. Cidadão sim, porque todos lá votam. Votam porque são obrigados, mas
ninguém acredita nas promessas da TV, nem da ‘Voz do Brasil’. Ninguém aparece
lá para implorar votos porque
a cidade é muito distante de tudo, ninguém faz questão desses 129 registros.
Mal sabem eles, que quem colocou Fernando Henrique Cardoso no poder em 1995
foram os paraúenses.
Politica e políticos a parte, Jacó
continua jogando bola e Joana brincando com sua boneca-milho.
Depois de três horas de jogo, Jacó já
estava exausto e correu para casa para tomar água e
tomar um banho. Ele tinha que aproveitar esse dia, pois ninguém sabia quando ia
ser a próxima vez. Tomé, irmão mais novo, tem um gênio forte. Critica e questiona
tudo que está ao seu redor. Isso preocupava a família, porque ele não tinha
idade pra dar tanto trabalho assim. Mas tem o lado positivo. Tudo o que saía de
sua boca fazia seus pais refletirem. Todos acreditavam que Tomé era o futuro da
família, porque disseram na televisão que as pessoas que questionam têm mais
chances de superar as barreiras da vida. A
esperança de Dona Francisca é que ele consiga passar no tão falado vestibular,
faça medicina e leve todos para São Paulo para trabalhar e ter uma vida mais
confortável.
Certo dia, duas semanas após a chegada
do caminhão pipa, a família saiu em busca de uma pessoa para cuidar da mãe de
Dona Sebastiana, que estava adoecendo.
Ninguém sabia qual era a doença que gerava aqueles sintomas de febre, desmaios
e dores, nem mesmo a vizinha que trabalhava com plantas medicinais - a única pessoa
que sabia ajudar as pessoas da comunidade.
Depois de uma hora andando pelas ruas
secas de Paraú, o pai
lembrou-se de um amigo que havia lhe apresentado um remédio para cicatrizar
feridas e foi até ele pedir ajuda para a sogra. Seu Francisco realmente
conhecia do assunto e podia dizer qual era a solução para aqueles problemas. 15
minutos de conversa foram suficientes. A mãe de Dona Sebastiana comeu
algumas folhas durante três dias e logo depois já estava melhor. Aqueles
sintomas tinham sumido por apenas uma semana.
Tomé, sempre preocupado com o que
estava acontecendo, perguntou ao seu pai se a avó ia morrer. Seu Tadeu não
soube responder com precisão, mas foi compreensivo com o filho e disse: Não sei
te responder. Se a sua avó for dessa para uma melhor, nós vamos rezar muito
para ela e, com certeza, junto com o papai do céu é muito melhor. Era muito
difícil falar daquele assunto, pois a doença da avó Francisca tinha desestabilizado
toda a família, mas a comunidade estava empenhada em ajuda-la.
Tudo já era complicado em Paraú, mas
complicou ainda mais.
A água diminui, a população diminui
Já fazia um mês que a região estava
sem abastecimento de água. O período de estiagem chegou e com ele, o desespero
de toda a comunidade. Crianças e idosos com problemas respiratórios, gados
morrendo, plantações sem nutriente algum. Tudo o que a família Silva queria era
um pouco de chuva e um pouco de tranquilidade. Queria, também, uma oportunidade
de migrar daquela cidade para outro Estado. Cogitavam São Paulo, Rio de
Janeiro, Brasília ou, pelo menos, Natal.
Dois meses se passaram. Era 28 de
Agosto e o único rio da cidade estava com apenas 20 milímetros de profundidade.
A população já havia sido reduzida a 110 pessoas. Ninguém saía na rua, todos
dormiam o maior tempo possível para driblar a fome.
Antes de amanhecer, um barulho atormentou o sono da
família Silva. Todos acordaram com o barulho de motor velho. O medo não deixou
que os pais saíssem na rua para saber o que estava acontecendo, mas o pentelho
Tomé fez isso por eles. Escondido da família, o filho mais novo pulou a janela
e foi para a rua saber de onde vinha o barulho. Quando chegou perto da cerca,
viu que era um caminhão baú e várias vozes surgiam de dentro do veículo.
A curiosidade falou mais alto e o
menino, de apenas seis anos, chegou mais perto do caminhão, que estava parado
em frente a sua casa. Dezenas de pessoas estavam aglomeradas, entre elas,
animais, móveis e alguns alimentos. Tomé viu aquilo e lembrou-se de uma
reportagem que viu na televisão, onde nordestinos saíam em um caminhão de sua
comunidade e buscavam melhores oportunidades em outros lugares do país. Ele não
sabia, mas o nome desse caminhão é pau-de-arara. Essa era uma grande chance.
Não pensou duas vezes e com sua garganta seca, saiu gritando pela rua até
chegar à sua casa: Mãe, pai, vó, vamos embora! Estão nos esperando.
Todos levantaram apavorados e foram
verificar o que estava acontecendo. Depois de dar uma bronca no menino, Tadeu
viu que era verdade a história do caminhão e logo chamou Dona Sebastiana.
Os olhos brilharam e algumas gotas de lágrimas escorreram pelo rosto do casal.
Realmente, era uma grande oportunidade. Ninguém sabia quem havia mandado o
pau-de-arara à Paraú, mas
todos que quisessem, podiam entrar. Era gratuito. O destino era a grande cidade
de São Paulo.
Juntaram todo o alimento que guardavam
em um saco e correram para não perder o lugar. Dona Sebastiana,
Francisca, Tadeu, Tomé, Joana e Jacó estavam eufóricos, todos ansiosos e com o
coração apertado, pois estavam prestes a mudar de vida. Infelizmente, no
caminhão não cabiam todas as pessoas da comunidade e o horário de passagem era
proposital. A família Silva foi a última a entrar no veículo.
A hora da despedida
A coisa mais difícil para eles foi olhar
pra trás e ver as outras famílias implorando por um lugar. Ninguém sabia se
haveria transporte outro dia, mas era preciso partir. As esperanças iam
surgindo de quem conseguiu uma vaga e até o fim da viagem, calculada em quatro
dias, muitas coisas aconteceriam, sejam elas boas ou ruins.
Nos dois primeiros dias tudo foi
tranquilo. Os passageiros dividiram o alimento e o pouco de água que guardavam.
Durante o percurso, os homens enchiam os dois galões nos
rios que encontravam a cada 100 km. Há
tempos eles não bebiam um a água tão limpa. Era difícil dormir, mas para tudo
dá-se um jeito.
No terceiro dia, a situação começou a
complicar. Não havia alimento para todos e mais de a metade das pessoas estavam
desnutridas e desidratadas. Até a tarde do terceiro dia, a quantidade de
pessoas que saíram de Paraú era a mesma
no Espírito Santo. Mas no início da noite a situação mudou. Enquanto sua
família dormia, Tomé resolveu levantar para buscar um pouco de água na garrafa
do amigo, que estava
do outro lado. Ele andou e caiu quatro vezes no caminhão, pois balançava muito,
mas ninguém percebeu as quedas. No segundo passo depois do último tombo, o
filho mais novo da família Silva não conseguiu se equilibrar e caiu mais uma
vez, só que agora para fora do
caminhão.
Um sonho ruim assustou Dona Sebastiana e ela
acordou desesperada procurando pelo filho, mas não o encontrou. Olhou para fora
do caminhão e percebeu algo caído no meio da estrada. Logo imaginou que fosse
Tomé. Quase sem forças para gritar, a mãe acordou todos e pediu que o motorista
parasse o pau-de-arara. Tadeu pegou as ervas que guardava, desceu e correu para
encontrar o que poderia ser o seu filho. Os irmãos, a avó e a mãe o seguiram.
Ninguém conteve as lágrimas quando confirmaram que o menino havia caído do caminhão.
Dona Francisca analisou o neto e disse aos prantos: Ele
está morto!
Foi um momento de plena tristeza.
Mesmo que faltasse pouco para os retirantes chegarem ao seu destino, a família
Silva já estava sem forças para continuar. O filho mais novo, que teria um
futuro promissor, acabava de deixar um vazio no coração de todos. Diante de
tanto sofrimento, Tadeu deixou o saco de ervas no chão, pegou o filho nos
braços e, junto com a esposa, a sogra e os outros dois filhos, fez todas as
orações que conhecia. Era o último momento com Tadeu.
Diante da situação, o motorista do
caminhão não podia ficar parado por muito tempo, pois outras pessoas poderiam
não suportar mais. Então, sem avisar os Silva, eles partiram. Quando Dona Sebastiana percebeu, o
pau-de-arara já estava muito distante e não dava tempo de chamá-lo de volta.
Por um momento, Joana olhou para todos os lados e viu que estavam no meio do
nada. Não havia pessoas, não havia casas, não havia animais e muito menos água.
A família permaneceu no meio da estrada
e já pensaram em tudo o que podia acontecer enquanto estavam ali. Ainda com
Tomé nos braços, Tadeu pediu perdão a todos e lamentou tudo o que estavam
passando.
A única coisa que deu tempo de Dona
Sebastiana falar antes de eu,
repórter, chegar e levá-los para São Paulo foi: "Não
vamos nos desesperar, família, cada
lágrima que a gente derramar agora será um sorriso quando o anjo
aparecer para buscar nosso menino e
iluminar nosso caminho. Deus nos protege, como sempre nos protegeu"
Em tempos modernos, a família vai se adaptando ao modo paulistano de ser.
Em tempos modernos, a família vai se adaptando ao modo paulistano de ser.
Ana Maria Reis
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